sábado, 31 de outubro de 2009

Bilhete

A chuva lavou o sangue
Daqueles que pecaram por estarem parados
Um único momento

Não há vida que se pague em um segundo
Um momento

Derramada
A água lava minha angústia
Irrigando minha consciência
Lembrando que devo continuar andando

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Procurei dentro de mim
e percebi
que escrevo apenas o que está fora

Não quero ilusão
quero reflexão

Não quero insensatez
quero explicação

Paro e penso
procuro e escrevo

Canso e recomeço

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Dia de Chuva

Opa! Desculpe. Estou tão cheia de coisas e ainda mais essa chuva faz tudo ficar tão cheio, tão mais pesado, tão mais volumoso. Tô vindo da facú. Tive prova de ética, pensei tanto que ainda tô pensando. Na prova. Sabe eu nem sei como respondi àquelas perguntas, é tudo tão difícil. Como ter ética num país como o nosso? Tá mais pra superego do que ética né mesmo? Sabe. Daquele tal de Freud. Quem tem tem e nem sabe que tem. Meu cabelo tá tão encharcado, que saco, isso é que dá ter cabelo comprido. Bom é o do senhor que já está seco. Curto né? Cabelo de homem é mais fácil! Tudo pro homem é mais fácil. Arrumar emprego. Estudar. Namorar. Casar. Tudo. Na próxima encarnação quero ser homem. Ai que cansaço. Sabia que ainda chego em casa e tem coisa pra fazer? Só vou dormir lá pelas duas, isso porque acordo às seis. Fazer o quê? Nem sei mais daonde tiro forças. Acho que é da força das mulheres mesmo. Tô tão pensando na prova que não consigo nem dormir. Droga. Meu caderno molhou. Lembrei daquela música Losing my Religion que todo mundo pensava que o cara tava virando ateu só na facú é que me disseram que ele tava perdendo a paciência. Também tô sem paciência. Tá abafando. Parece que tá tudo fechado. Que coisa.
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Que horas sai esse ônibus hein?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

São tão velhos


Caras............... DESAMASSADAS
Narizes ........... EMPINADOS
Braços.............. RÍGIDOS
Peitos................. DUROS
Olhos.................... PERDIDOS


São tão velhos
que precisam de colo

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A campainha, o beijo e a lágrima

Não imaginou que doeria tanto despedir-se. Seus cabelos brancos não resistiriam a emoção de dizer adeus, uma vez que não sabia se teria a oportunidade de dizer olá novamente. Que incômodo pensar no futuro quando o presente pesava tanto e era tão sofrido.
O taxista o chamou pelo nome com a intimidade que uma ligação de celular para o ponto de táxi permitia e aguardou em silêncio a procissão que descia vagarosamente as escadas. Não era sua a emoção que tomava aquele momento.
Os cabelos brancos vinham primeiro, marcando o passo. Um degrau de cada vez. Não tinha pressa, não queria deixar que um pedaço seu fosse embora. Não. Em um piscar de olhos elaborou um plano. Deixar-se-ia cair no último degrau, quebraria alguns ossos, aproveitariam o táxi para levá-la ao hospital e ele perderia o vôo. Quando abriu os olhos novamente, já tinha desistido da ideia. Não queria causar sofrimento. Pisou no último degrau com convicção. Deu mais um passo e respirou fundo antes de virar a chave que abriria o portão. Com outro passo já estava na rua.
A luz do meio dia feriu seus olhos e foi obrigada a fechá-los por um segundo. Na escuridão a lembrança de quem era, o que fizera, quem amara, a quem ajudara. Enfim, sua vida saltou da infância à velhice tão rápida e nitidamente como o brilho do sol.
Abriu os olhos e viu a procissão que ganhava o portão. Parada viu passarem pessoas queridas e outras nem tanto, mas que eram imprescindíveis no momento. A que mais importava, curiosamente ficara por último. Parada, apoiando a mão no portão, sabia que teria o privilégio de ser a primeira a despedir-se. Queria ter a oportunidade de usar todo o tempo permitido não importando quanto fosse.
Sorriu e não entendeu quando viu sua carne passando displicentemente em direção aos outros participantes da cerimônia de despedida. Sentiu sua pele ser tocada pelos beijos e abraços, sentiu seu coração bater mais forte a cada sorriso, sentiu seu sangue fortalecer-se a cada palavra de incentivo. Quando finalmente colocou seus olhos nos seus olhos não agüentou a dor e fechou-os por um segundo.
Nesse instante, o que viu e sentiu foi impossível de conter. O amor que sentia ao casar-se, o prazer que teve na concepção, a felicidade da primeira palavra, a consternação da primeira rival, o orgulho do diploma. Viu de olhos fechados que o caminho já estava traçado. Nada poderia fazer para voltar atrás.
Esperou que se abaixasse antes de lhe oferecer o rosto para o beijo. Esperou ser beijada com força. Esperava que mostrasse o quanto doía dizer adeus, separar a carne da carne. Esperou. Esperou. Esperou. Nada aconteceu. Ele não a beijava! Ele não a beijou. Ele.
Encolheu os ombros como quem está totalmente perdida, sem rumo, sem bússola e sem direção. Não entendeu o gesto. Olhou dentro dos seus olhos e não viu sua imagem. Não sabia o que via. Um misto de medo e decepção formou-se em seus pensamentos. Porquê?
Um mundo sem som, sem luz e sem cheiro explodiu nesse momento. Tudo o que era, o que amava e o que fizera deixou de ter sentido. Piscou os olhos e não viu nada.
Quando os abriu, só viu o barulho da porta do táxi. Paralisada por um segundo, com os braços vazios no ar esperou o conforto de agarrar uma palavra. Não pode. Não compreendera nada até aquele momento. Não até sua boca recusar--se a tocar seu rosto. Não até o táxi ir embora. Não.
Chorou. Sua lágrima molhou o chão estéril e fez brotar o arrependimento. Entrou já trancando portão e subiu as escadas sem piscar.

Alexander Martins

terça-feira, 29 de setembro de 2009

No Formol

A vida já
Se foi.
A matéria por outro lado não pode resistir sem a força
do formol